Foram 58 dias de missão, muitos dias agarrado ao volante do novo "cavalinho", o jeep da equipa missionária, a fazer transportes de doentes para a cidade ou de bens alimentares para o Gungo.
Em Angola, não é importante o nú pormero de quilómetros, mas sim o tempo que demoramos a fazê-los. Pode-se demorar 6 horas para fazer 20 quilómetros de picada, ou demorar mais do que 12 horas. Depende da chuva e do estado do caminho que vamos percorrer. Apanhei picada com muita lama, picada seca, e a população preocupada com a falta de água. Nestes 58 dias só choveram 3 dias e logo na minha chegada a Angola, nos restantes dias fez sempre sol. Sendo que entre Dezembro e Janeiro é, habitualmente, a altura de muita chuva e a água é essencial para a agricultura e para a higiene das populações do Gungo.
Neste momento a população do Gungo está a passar um grave problema de fome, porque as últimas colheitas não têm sido boas por falta de água na altura certa. Com a taxa de natalidade alta, vai haver um outro problema de falta de alimentos para as famílias. Mas também a falta de saúde é um problema, a desnutrição infantil e adulta, infecções da pele, malária e outras doenças. Aqui funciona a lei do mais forte para sobreviver…
Na missão, temos de lidar com a imprevisibilidade dos dias, “sem programa de actividades” porque jamais vamos conseguir cumprir o plano que fazemos para o dia. Vai aparecer algo mais urgente para ser tratado naquele momento. A nível de saúde de um popular com febre altas «causadas pela malária ou pelo consumo da água que não foi tratada como deve ser» ou fazer um simples rastreio de ecografias de futuras mamãs. E sim a taxa de natalidade é muito alta, são mães aos 15 anos.
Mas há sempre coisas positivas, o sorriso das crianças, sempre alegres e com vontade de ajudar numa tarefa qualquer. Chegar ao fim do dia e sentir que fui útil para alguém, sentir que fizemos a diferença.
Lá as pessoas não reclamam porque fizeram horas a pé para ir a uma consulta de saúde ou por esperar horas para serem atendidos e depois voltarem a pé para casa. Nisto vemos a simplicidade e a gratidão que têm pela equipa missionária, que está ali para apoiá-los.
Os Domingos à tarde, são o tempo de descanso da equipa missionária e estar no meio da natureza, a ver as cores, os cheiros e os sons de África, estar com as crianças das aldeias próximas e carregar as baterias para a próxima semana de missão.
Foram 58 dias de uma experiência que se vai repetir com certeza.
Mácio