sexta-feira, março 15, 2019

Cheira mal na Donga...

Na subida a mana Silvia assumiu os comandos do cavalinho. Lá teve de lamber um pouco de lama no Chitonde porque entretanto choveu. Levámos o cavalinho cheio de manos e manas, entre os quais dois manos que desceram ao Sumbe e que estavam de regresso ao Aueco. Pela viagem lá vinha o Toni a dar umas valentes cabeçadas no vidro ao que nós gozávamos: "TONI! Vais ficar com a cabeça quadrada!". Bom, parámos no Uquende para deixar uma passageira e para tratar de alguns assuntos já a noite tinha chegado. O padre tomou conta do volante a partir daí e no mamoeiro (lugar da picada que é muito enlameado) já teve de pôr o cavalinho a gritar. A travessia foi feita com sucesso e chegámos à Donga por volta das 21:30 do dia 1.

No Sábado o padre teve nas formações com os casais com filhos para o Baptismo, a mana Sílvia tratou da pastoral da criança onde fez um dinamismo engraçado com os líderes de cada bairro e, como não havia equipa de trabalhos, empenhei-me no desentupimento da fossa da casa dos missionários.


Já na Donga, tivémos um Domingo normal... Dia do Senhor... E do CHOCOLATE... E da MEIA-BOLHA (copinho de vinho para quem não sabe). Deu para dormir a cesta e para rever o projecto da água. Descobrimos que temos um novo membro na Donga. Mais um cabrito a que chamamos de "Bandeirinha", porque é todo preto e tem o rabo branco... Parece mesmo que está a  acenar a bandeira quando abana o rabo. O "Antunes", o outro cabrito que já nasceu a semana passada, assim "baptizado" em honra à mana Sílvia Antunes, precisou de uma intervenção porque tem uma infecção nas virilhas, mas fora isso está de boa saúde.


Surgiu a ideia de construir uma serralharia fechada para que toda a ferramenta fique reunida no sitio onde se vai trabalhar para poupar o tempo de arrumar e desarrumar todos os dias. Assim começou logo a semana com a abertura dos buracos para as fundações da serralharia, que vai ficar mesmo em frente da porta do gerador, o que obrigou a retirar a britadeira do seu lugar original. Uns a escavar, outros a partir pedras que estavam no caminho com a técnica dos furos e das cunhas... Olha que até resulta!




Na terça-feira o Pedro Ernesto, o Narciso, irmão do Pedro e o padre estiveram empenhados a fazer a cofragem e a soldar os últimos ferros da viga de fundação para a casa de apoio aos catequistas, a mana Sílvia e a mana Teresa com as consultas e eu a arrancar a árvore que ficou a estorvar a fundação da serralharia com o mano Calumbendo.
Após isso, os trabalhos na casa dos catequistas continuaram e ficou metade da viga de fundação feita. Eu encarreguei-me de construir 5 cinoblocos para a britadeira e de a colocar ao pé da moagem. Assim ficam essas duas máquinas próximas e ficam ambas debaixo de telha assim que a serralharia estiver finalizada.
Durante a semana a mana Sílvia tem feito uns exercícios para puxar pelos miúdos e pelo seu raciocínio e tem ajudado as manas com os trabalhos de casa.
Na descida, na segunda-feira, assumi eu o controlo do cavalinho e, no mamoeiro consegui passar! "Cuiei" (Gostei) mesmo da travessia! Pouco tempo depois, no Chitonde assentei o cavalinho com os dois eixos no chão para a coisa não parecer assim tão fácil... Peripécias da picada...




Por aqui, no Sumbe, a minha profissão tem sido carpinteiro. Recebemos um crucifixo feito pelo amigo Carlos Oliveira e a caixa que o envolvia para o proteger no contentor é de madeira e tem um aspecto mesmo jeitoso para armário de sacristia. Ainda não está concluído, mas já falta pouco. A mana Sílvia também experimentou o serrote e o corte até saiu direitinho! Temos carpinteira. Também deu para recauchutar dois pneus do Unimog que estavam com "maca" e que estão quase prontos para outra!





Da linha da frente é tudo, por agora...
Lição de Umbundo: "Konduko ya'ise L'Omola, la Tchilelembya-okola, Amén!" - Em nome do pai do filho e do espírito santo, Amén!
Estamos juntos!

segunda-feira, março 04, 2019

Almoço-Concerto em Porto de Mós

De 14 a 26 de janeiro, a Missão de S. José do Gungo recebeu a visita de um grupo de 12 pessoas da UASP – União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses, no âmbito do projeto “Por mares nunca dantes navegados!”. De 8 a 20 de julho, será a vez de outro grupo da UASP percorrer os caminhos das montanhas do Gungo.

A par destas visitas, os nossos amigos da UASP vão desenvolvendo, ao longo do presente ano pastoral, um programa de apoio ao Ondjoyetu, programa esse que se iniciou no dia 16 de dezembro na forma de um almoço solidário em parceria com a paróquia de Nossa Senhora da Piedade - Ourém, tendo o respectivo saldo revertido integralmente para o projecto missionário da diocese.

O próximo evento organizado pela UASP, desta vez em parceria com a paróquia de Porto de Mós, consistirá num almoço musical solidário a realizar-se no dia 10 de Março (próximo domingo), a partir das 12h30, no salão de S. Miguel, em Porto de Mós.

Inscrições para o almoço-concerto do dia 10 de março: telem.: 963 324 133 / telef.: 244 402 268 (Pe. José Alves)

sexta-feira, março 01, 2019

Walanga Puto


Por aqui todos felizes e contentes a viver cada dia na graça que nos foi concedida. E claro, convosco no coração...
Subimos rumo às nossas montanhas e temos mais um bebé, um cabritinho que mais parece ter pisado numa poça de tinta branca. É tão fofiiiiiiinho!

Nesta temporada tivemos encontro dos catecúmenos e da Pastoral da Criança, o que levou à concentração de muitos miúdos e graúdos (para nos deliciarmos também com um pouco de brincadeira e umas baladas noturnas ao som da viola tocada pelo mano Humberto. O padre Joaquim ensinou-o bem!.

Além dos biscates habituais de serralharia e fotocópias e hortas e fazer pão e, e, e… vejam a fotografia do mano Berto com o portátil do mano Mário, tirou todas as letrinhas do teclado e depois? Depois, fez-se uma canjinha de sopa de letras!
O milho que estava guardado no celeiro também já foi todo debulhado e limpo com a ajuda da comunidade. Agora é só esperar mais um pouco que o milho que ainda está na terra seque e voltarmos a encher o celeiro. Nas obras da Donga avançou-se mais um bocadito na casa de apoio aos catequistas.
Outra boa nova é que temos mais uma mana a estudar connosco na Donga, a mana Conceição que é natural do Uquende. Agora, os nossos serões são a fazer os T.P.C., “cuia” estudar e aprender todos juntos. E até fazemos apostas, quem perde faz a tabuada!
Pronto, são as novidades da semana… “Não perca o próximo episódio, porque nós também não!”

“Otcho ápu!” (Adeus!)

Linha da frente (com os dedinhos da mana “Sírvia”)

terça-feira, fevereiro 26, 2019

Nota de pesar

Eu sou a ressurreição e a vida. (Jo 11, 25)
Vimos por este meio dar a conhecer que faleceu a mãe do nosso missionário e fundador Pe. Vítor Mira.

Ao nosso amigo Pe. Vítor e a toda a família enlutada endereçamos as nossas sentidas condolências e muita coragem. Unimo-nos a vós neste tempo de dor, rezando pelo eterno descanso de Salatina, que Deus acolhe hoje no seu seio de amor, e pelo consolo de todos aqueles que choram a sua partida. 
O nosso abraço forte e amigo. Estamos juntos.

O funeral da mãe do Pe. Vítor será amanhã, dia 27 de fevereiro, às 16h00, na igreja paroquial de Carvide.

O Grupo Missionário Ondjoyetu

domingo, fevereiro 24, 2019

Reunião mensal de março


A próxima reunião mensal realizar-se-á neste sábado, dia 2 de março, às 21h00, no Seminário Diocesano de Leiria. Entre outros assuntos, começaremos a preparar a celebração dos 20 anos do Grupo Missionário Ondjoyetu e ouviremos o testemunho do nosso missionário Carlos Santos, que está de volta a Portugal depois de quatro meses de missão em Angola. Seguir-se-á à reunião o habitual convívio com chá/lanche partilhado. Uma semana abençoada para todos!

Na Sagrada Eucaristia tornamo-nos um com Deus, como o alimento com o corpo. São Francisco de Sales

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

Visita da UASP ao Gungo

De 14 a 26 de janeiro, a Missão de S. José do Gungo recebeu a visita de um grupo de 12 pessoas da UASP – União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses, no âmbito do projeto “Por mares nunca dantes navegados!”. De 8 a 20 de julho, será a vez de outro grupo da UASP percorrer os caminhos das montanhas do Gungo. A par destas visitas, os nossos amigos da UASP vão desenvolvendo ao longo deste ano pastoral um programa de apoio ao Ondjoyetu, programa esse que se iniciou no dia 16 de dezembro na forma de um almoço solidário em parceria com a paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Ourém, tendo o respectivo saldo revertido integralmente para o projecto missionário da diocese. O próximo evento organizado pela UASP, desta vez em parceria com a paróquia de Porto de Mós, consistirá num almoço musical solidário a realizar-se no dia 10 de Março, a partir das 12h30, no salão de S. Miguel, em Porto de Mós. Brevemente daremos mais informações. Entretanto, aqui fica a partilha do nosso Ondjoyetu Luís Matias, que visitou em janeiro a Missão do Gungo na condição de membro da UASP.


A ESPERANÇA NUM PAÍS ADIADO
(Crónica de uma viagem fora do mundo)
UASP – Por Mares Dantes Navegados - Ondjoyetu


     Quem conhece Angola, sabe que não é possível, a qualquer título, fazer turismo neste país. Custo de vida completamente fora de razão; passagens caras; processos de vistos desincentivadores; insegurança; riscos de Saúde; mobilidade e vias de comunicação destroçadas; falta de bens essenciais; questões de higiene; alojamentos; cultura; e mais uma vintena de grandes razões para fundamentar a afirmação, mas não são relevantes para o objetivo que temos em mente. Ao invés, não faltam motivos de interesse; beleza natural; gentes maravilhosas; ritmo; cor; sons, exotismos diversos…
     Mas de facto, um estrangeiro, só viajará a Angola por 3 motivos essenciais: Ou Trabalho; Ou Missão; ou Aventura. Ou seja: Por necessidade; por Fé ou filantropia; por prazer do risco e do desconhecido.
     A primeira impressão que se tem quando se chega a primeira vez a Angola é a sensação indescritível de se chegar a um país tropical, anunciado pelo bafo quente com que o clima nos acaricia e nos envolve de imediato, sensação que não mais nos abandonará. Já vimos do avião a terra vermelha contrastando com o azul do mar, e outro contraste bem mais chocante, que anuncia o tudo e nada da capital mais cara do mundo, que é a convivência de enormes e modernos edifícios, plantados no meio de uma imensidão de “Musseques” (os bairros de lata), que fazem a verdadeira e real Luanda e que são um prenúncio do cenário que haveremos de constatar em todo o território que percorremos. Um país super-rico de recursos, dotado da maior beleza natural, muito fértil, mas sulcado pela miséria, com marcas muito visíveis de guerras fratricidas, em que o irmão subjuga e saqueia o seu próprio irmão, reduzindo-o sem qualquer piedade à condição de uma escravatura infra-humana. E como a miséria não necessita de exibição, porque está patente e generalizada em todo o lado, a riqueza de uns poucos, sim, tem de ser exibida e ostentada no pior cenário, na pior montra. Por isso, é fácil encontrar no percurso os “jipes” V12 à prova de bala com vidros escurecidos e, na capital, até Ferrari’s que não conseguem senão circular na sua rua que, com frequência, começa e termina com umas proeminentes lombas onde o dito já não consegue passar.
     É esta a capital, Luanda, onde o lixo se amontoa nas ruas, nas ravinas e morros, no leito seco dos rios e, por acção das enxurradas, finalmente, no mar. Os poucos semáforos não acendem, o trânsito é um caos, os taxistas à velha maneira soviética (chamados de candongueiros), em carrinhas Toyota ou chinesas copiadas, provocam a maior confusão, juntamente com os milhares de vendedores de rua que permitem que tudo se compre enquanto se está na fila de trânsito, desde a agulha, ao saldo de telemóvel, ao bife, à ventoinha e até ao frigorífico… nas horas de ponta, 4 horas para percorrer 20 Km, dá até para jantar. Luanda é uma cidade que não tem estrutura para mais de 1,5 milhões de habitantes, mas estima-se que residam mais de 8 milhões.
     O primeiro dia foi de chegada, logo na madrugada de terça feira. Uma volta de reconhecimento a Luanda, onde se destaca a visita à sumptuosa igreja de S. Paulo, construída nos idos tempos coloniais, bela e preservada, uma passagem pela capela da Senhora da Nazaré, na Baía de Luanda, um passeio ao fundo da ilha (que é uma restinga) e o almoço na casa do Verbo Divino na capital. Depois a descida ao Sumbe, pela horrível EN 100 (em reconstrução), a estrada mais movimentada do país.
     Saímos de Luanda e encontramos uma paz também ela chocante e degradada. Paragem obrigatória no “Miradouro da Lua”, uma paisagem picto-fantasmagórica esculpida naturalmente numa arriba argilosa, em tons de vermelho, rosa e branco, com uma vista até ao mar. E depois, caminho em terra de catos e palmeiras, com formas espetaculares (às vezes a lembrar os filmes do far west), paisagem entrecortada com vales planos e muito verdes , nas bacias dos rios. O primeiro é o Kuanza, o maior rio de Angola. Passámos a ponte (único local de Angola onde se paga portagem). Aqui termina a província de Luanda e se passa para a do Bengo. Passada a ponte, começa o parque nacional da Quiçama. Uma multidão de macacos abeira a estrada à espera de umas bananas, amendoins ou bolachas. São muito sociáveis, algumas mães transportam filhotes agarrados ao ventre, e aconselha-se a ter cuidado com os telemóveis e máquinas fotográficas, porque no momento do clic, pode um gesto tão rápido com o próprio clic internar definitivamente o aparelho na densa floresta. Depois o Rio Lomba, onde inicia a província do Cuanza Sul, a nossa, e mais perto do sumbe, o espetacular rio Keve. Nas terras férteis dos rios já encontramos enormes e vistosas mangueiras, e nas zonas mais áridas vamos encontrando os majestosos e inconfundíveis embondeiros, com os seus frutos pendurados que muitos comparam a grandes ratazanas penduradas pelo rabo, de nome MÚCUA, das quais se faz chá, gelados e sumos. Nos 330 Km de Luanda ao Sumbe, passamos pela zona das famosas praias de Sangano e Cabo Ledo, visíveis apenas nas placas de direção, escassas em Angola, e passamos apenas por uma cidade, PORTO AMBOIM, degradada, mas maravilhosa, que deixa entrever na sua beleza e estrutura antiga um passado faustoso e privilegiado. Chegados ao Sumbe, a capital da província, outrora chamada Novo Redondo e famosa pelas praias e pelo mais importante rali de Angola, e o choque aumenta.
     Entramos por uma zona alta, e vemos a cidade estendida numa planície ao nível do mar, completamente emuralhada por montanhas. A cidade está miseravelmente degradada. Bairros lamacentos ou empoeirados conforme a época do ano, com uma marginal de sonho, coqueiros na praia, um palácio do governo do tempo colonial a marcar a diferença, e uma Catedral com uma arquitectura futurista e específica para África, com o oceano em pano de fundo. Na cidade, sobressai a degradação, o lixo, o cheiro nauseabundo, e o cenário grotesco das montanhas em redor, mais fazem lembrar um terrível cenário de guerra do que algo onde decentemente possam viver pessoas. E com razão, porque decência neste emaranhado de sobrevivência precária é o que não há. Para além dos degradados e descontrolados bairros existentes na planície, o maior dos quais é o Chingo (onde há um imenso mercado formal e informal, que vende de tudo em situação degradante, de arrepiar e revirar qualquer estômago forte), as montanhas estão completamente polvilhadas de pequenas e degradantes habitações de adobe e pau a pique, plantadas em pequenas plataformas escavadas nas encostas, e onde as enxurradas frequentemente fazem arrastar muitas delas de uma só vez, encosta abaixo, depositando a lama diretamente nas ruas da cidade.
     Subimos finalmente ao Bairro da Pedra Um, povoação a condizer com a caracterização atrás descrita, e ali encontramos um verdadeiro oásis neste cenário a roçar, senão o macabro, pelo menos o muito chocante. Os dois acessos, qual deles o pior, são um bom prelúdio para o que nos espera mais tarde na picada das montanhas do Gungo. A partir da comarca (a prisão lá do sítio), vamos verdadeiramente dançar Samba dentro dos nossos Toyota Land Cruiser, um dos quais o nosso histórico, velho, afectuoso e valente “Cavalinho Branco”. Passámos pela interessante igreja do bairro, que tem na sua conclusão um dedo da nossa Missão Ondjoyetu, logo a seguir pelo Seminário Maior da Diocese, edifício bem mais singelo e discreto que os nossos europeus e, à chegada, já noite escura (porque nestas paragens às 6 da tarde é noite), avistamos uma cruz luminosa no meio do bairro, que indica a chegada ao oásis chamado ONDJOYETU (a nossa casa), o sítio de repouso e de apoio logístico da Missão.
     A casa, construída pelos próprios missionários, com apoio da retaguarda do grupo em Portugal, que angariaram e enviaram a maior parte dos materiais, é uma edificação em U, de rés do chão, extensa, para albergar as necessidades das atividades da Missão. Ao fundo, ergue-se a capela a um nível mais elevado (à cota de um 1.º andar) e, na parede, uma exuberante cruz incrustada, em tijolo de vidro, exibe a sua fantástica presença ao exterior, à noite, bastando para tal acender a luz da capela. O efeito é hoje o mesmo, mas o impacto há dois anos atrás era ainda mais distinto, atendendo a que não existia luz eléctrica no bairro (nem na missão, a não ser por um gerador), e a única luz que se impunha naquela escuridão abismal, era a Cruz da Missão.
     “Quem dá o que tem a mais não é obrigado”. Fomos fazer uma experiência de missão; não fazer turismo (já se disse no início que em Angola não se faz turismo). Foi neste ambiente e com este objectivo, de viver a Missão como ela é no seu dia a dia, que nos arrumámos em quartos colectivos (homens para um lado, mulheres para o outro), mas decentes. Aposentos tão bons, no contexto, que não têm comparação possível com o melhor que possa existir no entorno. Conversámos, planeámos e jantámos. O jantar na Missão, é sempre e só, sopa e fruta. E assim ficámos integrados no ambiente e dinâmica da Missão. À mesa, os 12 navegantes da UASP, a inaugurar a V.ª etapa do projecto “Por Mares Dantes Navegados”; o Superior da Missão (mandatado no âmbito da geminação da Diocese de Leiria-Fátima e do Sumbe), o nosso amigo Pe. David Nogueira; o Avô Filipe e a mana Teresa (que fazem parte da pequena estrutura fixa da Missão), os voluntários Carlos e Sílvia, que tiraram das suas vidas de conforto europeu e do seu tempo e família 4 meses e 1 ano e 4 meses respectivamente, para se dedicarem a quem nada tem; e ainda 5 meninas jovens do Gungo, que a Missão apoia para estudarem no Sumbe, residindo e ajudando aqui na casa.
     No 2º dia, quarta, fomos conhecer o Sumbe, e o miserável estado da cidade revelou-se. Visitámos o indescritível mercado do Chingo, e viemos colaborar em algumas pequenas atividades de serviços na casa da Missão. E preparar a subida às montanhas no dia seguinte. Da rotina do dia faz parte o levantar às 6 da manhã, tomar o pequeno almoço e rezar Laudes. No primeiro dia estranha-se, no segundo entranha-se, no terceiro já faz falta.
     A quinta feira começa do mesmo modo. Depois preparam-se as possantes viaturas (mudaram-se os 4 pneus do jipe cedido pela diocese, para o conformar com as agruras da vida que iria passar nos dias seguintes), carregaram-se as ditas, e iniciámos a saga. Cerca de 150 Km, dos quais 80 em suposto asfalto que, por desvios para troços alternativos não terão somado mais de 20, e uns 50 numa das picadas mais miseráveis do país. Seria maravilhosa a picada, se o piso correspondesse ao belo da paisagem e das gentes. Seria o céu! Mas para mais perto dele caminhámos, trepámos, abanámos, resistimos, queixámo-nos… mas conseguimos.
     A primeira paragem, já a 15 Km do nosso destino (ainda difícil), foi no Ukende, a sede da comuna, lá no fim do mundo. Mas ainda há mais fim. Ali chutámos uma bola amarela, novinha em folha, que fez a alegria das dezenas de crianças que apareceram de repente do nada. Distribuímos balões e rebuçados, como de resto fomos fazendo pelos bairros onde passávamos, e ouvíamos os gritos das crianças a correr escarpa abaixo com aquele grito indizível, mal viam o jipe de “Pade, Pade, pade…” e depois “Chaue, chaue… chaue…”. Hoje eu e os meus companheiros de jornada, continuamos a ouvir aquele indiscritível, maravilhoso e repetido “Chaue…”. Isto não se esquece, por mais anos que se vivam. Para mim, que foi um reavivar maravilhoso desta sensação já tantas vezes experimentada, continua a ser um eco infinito da maior beleza, que só me transporta a um sentimento de gratidão à vida, por ter-me proporcionado esta indizível forma de beleza, de simplicidade, de amor… Chaue… pronunciado por uma, por mil crianças!
     Caiu a noite no Ukende. Poucos quilómetros, mas muito tempo depois, com incontáveis abanões capazes de desconchavar qualquer um, avista-se ao longe, ténue, uma estrela diferente das nuvens que agora ocultavam no maravilhoso céu do Gungo. Aquela luz, única tanto quanto a vista enxerga, e muito para lá disso, resultavam de um pouco de tecnologia perdida naquele nada; os painéis solares da Missão, que com todos os cuidados de gestão de energia, davam para iluminar, aquele negrume, quase até de manhã, quando pelas 5:30 o dia aparecia de novo. Chegámos finalmente ao meio do desconhecido que o negrume empolgava. Estávamos fora do mapa, fora das redes, num mundo quase inexistente. As estrondosas dificuldades diárias que os nossos heroicos missionários experimentam todos os dias, foram momentaneamente nossas também. Afinal, viemos para viver a Missão. Jantámos na apertada sala de refeições, que serve de muitas outras coisas em dias normais. Já devidamente protegidos dos perigos alados que livremente circulam no território que é deles, distribuímos os lugares de dormir, muito mais precários que os da cidade, mas ainda assim imensamente melhores que todos os do entorno. As mordomias desapareceram, sujeitam-nos ao confronto connosco mesmos, a alguns menos tolerantes podem até assumir contornos de desilusão, pelo menos de dificuldades. Confrontamos o nosso bem-estar com os limites da sobrevivência. Quiçá refletimos sobre o valor do que nem damos conta no nosso conforto europeu e, pensaremos talvez egoisticamente, com desalento e alguma revolta sobre o que não temos ali, ou com benevolência e espírito de partilha e adesão interior: que povo vive sujeito a esta ignomínia, e que heroicidade a de quem estoicamente vem ajudar aqui a quem nada tem, sujeitando-se a estas condições de vida? Água condicionada, latrinas, banho de balde…
     Mas o dia e dias seguintes despertam-nos para uma maravilha da criação: uma paisagem fantástica, onde nos sentimos verdadeiramente perto do céu e longe do mundo. Vamos descobrir um povo simples, acolhedor, afável, generoso. Não têm nada. Ou sim… têm: têm um sorriso, um ritmo, uma gratidão, uma alegria e uma fé que nos questionam sobre o que somos afinal? O que temos para dar em troca? Sempre me sinto pequeno de mais em confronto com esta realidade!
     O trabalho dos nossos Missionários (conscientemente escrito com M) é a única esperança destas gentes. E não vale lamentar-se e revoltar-se com a situação do um governo de um país que podia ter tudo, mas não tem nada. Essa parte não podemos mudar, e a nossa revolta a esse propósito, lícita e incontornável, não vem na prática resolver nada de concreto na vida destes seres humanos. Mas podemos, sim, fazer algo. E depois de vermos e experimentarmos, não acredito que o não façamos. Hermann Gmainer, o fundador da maior instituição de solidariedade privada do mundo, a SOS Kinderdorf dizia: “Se não podes mudar o mundo, muda onde chegares com a mão… e o mundo mudará”. Aqui, conseguimos ter esta percepção.
     Nos dias de Missão trabalhámos em diversas actividades necessárias, desde a formação de catequistas (que aqui desempenham um papel fundamental); a crianças a preparar a primeira comunhão; formação de acólitos; Consultas de saúde; construção civil e de fabricação de BTC (Blocos de Terra Comprimida); comida, etc.. Participámos nos actos de culto, vibrantes, vividos, alegres, eivados de fé. O dia sempre começa com as Laudes (às 6:30 da manhã) e termina com a oração magna a Maria. Partilhámos músicas, ritmos, experiências, estórias. Muitas crianças, e jovens, meigas, gratas.
     Descemos na segunda, e vimos a mesma paisagem exuberante, ao contrário. Chegámos ao Sumbe, outra vez de noite. É sempre como um voltar a casa, apesar de, aqui, a nossa casa ser o mundo. A casa da Missão na Pedra Um é acolhedora, repousante e sentimo-la como um ninho. Muito movimentada porque é a plataforma logística. Muito trabalho aqui se faz. Os Missionários não descansam, não tem folgas, não têm horário de trabalho, não se queixam à inspecção do trabalho. Mas a população toda os acarinha, em qualquer parte o jipe é conhecido, porque tem matrícula verde (atribuída às ONG’s) e tem identificada “Missão Católica”. Nem a polícia (que neste país vive mais à custa do suborno do que da subvenção do estado, que é pouca) se atreve a interpelar. Pelo contrário, têm uma enorme deferência pelos Missionários Católicos.
     Na terça, com piquenique na mala, rumámos a um merecido dia de descanso nas entranhas de outro paraíso. A cerca de 30 Km do Sumbe, um estrondoso espectáculo natural abriu-nos as portas: as Cachoeiras do Bingo. São umas abismais quedas de água no rio Keve, com um aprazível parque de merendas e, nesta altura do ano, uma apelativa praia fluvial. As quedas de água não são propriamente estrondosas pela altura ou pelo floreado das cataratas, são-no pelo medonho volume de água precipitada e pela velocidade da precipitação. É uma zona de grande produção de manga, fruto que nesta época tão gostosamente nos empanturrou e, como é bom de imaginar, fomos bons clientes na cachoeira.
     No dia seguinte, voltámos ao Chingo, passámos para lá do aeroporto e fomos à praia norte, dos pescadores, à cata de peixe bom a sair do mar, o único seguro neste país sem rede de distribuição e frio. Muitas redes a sair, alguns barcos, mas só peixe miúdo, daquele que secam ali ao lado e vendem depois nas bermas da estrada e nos mercados. A nossa intenção foi frustrada, mas não inútil a viagem: vimos e participámos naquela faina, passeámos numa praia linda, apanhámos muitas conchas e búzios grandes, satisfizemos o gosto ao dedo no pressionar de diafragmas para registar momentos felizes, e ainda houve quem se banhasse.
     Regressados à Pedra Um, no almoço, recebemos uma notícia triste e que foi muito sentida pelo grupo: a morte da mãe de 2 companheiros nossos, que regressaram de imediato a Luanda, para no dia seguinte voltarem a Portugal. O Pe. David e o Carlos foram á capital levar os nossos companheiros, e nós seguimos com o programa, mesmo em homenagem a estes companheiros e à sua recém falecida mãe que em situação normal estaria também ali connosco. Assim, às 18 horas, participámos numa Missa na linda catedral do Sumbe, celebrada também pela nossa Amiga Angela. No final, durante cerca de 1:30 h, fizemos um concerto de música para a comunidade do Sumbe que foi muito participado.
     Na quinta, fizemos um percurso mais turístico: rumámos à Cachoeira, subimos para o planalto, no meio de uma luxuriante mata tropical e chegámos à Gabela. Uma linda cidade com um exuberante passado colonial, com muita agricultura (Café, bananas, ananás, cana de açúcar, milho…). Ali almoçámos em piquenique, mas na Missão dos padres da Boa Nova (SMP). Circulámos toda a cidade e voltámos alguns quilómetros pela mesma estrada da subida. A seguir à povoação de “Maria Ganza”, parámos no mercado de fruta de estrada, em “Maria Augusta”. Comprámos fruta deliciosa, para consumo na Missão e para trazer para a Lusa pátria. Posámos longamente nos cafezais ali mesmo junto à estrada. O café ainda verde, está completamente formado e com uma excelente produção. E voltámos à estrada. Junto ao mercado dos 27, tomámos outra rota, para mais uma visão paradisíaca: a estrada da Conda e do Celes. Voltámos a passar sobre o rio Keve, num local de descida rápida da montanha. Morros de granito com formas completamente saídas de um filme de feiticeiras, vegetação luxuriante, um luxo para os olhos, em estrada com razoável asfalto.
     O penúltimo dia foi de tranquilidade na cidade do Sumbe. Durante a manhã fomos em aventura visitar as grutas de SASSA, uma das 7 maravilhas naturais de Angola, aqui mesmo junto ao Bairro da Pedra Um. Valeu bem a pena o esforço. Ao fim da tarde fomos recebidos pelo Bispo da Diocese, D. Luzizila Kiala, que nos acolheu com muita simpatia, na véspera de grande celebração com várias ordenações, cujos preparativos ali mesmo no terreiro da Sé, já mostravam a sua vitalidade e grandeza pelo movimento que tão antecipadamente exibia.
     No último dia da jornada, bem cedo, preparámos as malas distribuídas pelas possantes viaturas, carregámos o manjar ambulante para o almoço e partimos rumo a Luanda. Mas passado Cabo Ledo, desviámos da rota mais directa para visitarmos um incontornável lugar de Angola: a Muxima. É um lindo santuário Mariano (a Fátima africana – à parte a comparação), colado numa fabulosa curva do rio Kwanza, um local de peregrinação e fé, integrado no parque nacional da Quiçama. Dali rumámos à capital onde chegámos ao entardecer, pela estrada de Catete, atravessando ao sul de Luanda o enorme parque industrial de Viana. No Aeroporto, foram as fotos da praxe, as despedidas, a exibição das saudades que já se mostravam, o coração apertado, um balanço individual que cada um, seguramente, já concluído no rescaldo.
     E termino por onde comecei:
     Só se vai a Angola por 3 razões: Trabalho; Missão/filantropia; Aventura.
   Pois, meus leitores amigos, esta curta experiência, para mim várias vezes repetida, mas sempre nova, fez-me concluir que a heroicidade dos nossos Missionários é muito acima do conhecido Shampoo: não é 2 em 1, é mesmo 1 em 3, ou seja o pleno. Eu explico:
     A estoicidade, teimosia e espécie de loucura dos nossos missionários, residentes, voluntários e de sobremaneira os Superiores da Missão, vão para Angola:
     • Movidos pela MISSÃO, dando forma especial à sua Fé;
    • Chegam ali e não precisam de procurar trabalho; o TRABALHO vem ter com eles, é tanto e tão árduo que não têm tempo de pensar em negá-lo;
   • E a sua vida diária, na totalidade, é uma enorme e permanente AVENTURA, sem rodeios e garantidamente com todos os ingredientes que o limite da aventura poderia projectar. Não tenham dúvidas de que quem vai lá só à procura de aventura, não chega na sua realização, nesta matéria, aos calcanhares dos nossos Missionários.
     Nós, os navegantes da UASP (1º grupo) vimos isto e vivemos um tudo nada desta emoção. Um mundo cão, onde a esperança se mantém a partir do nada, e ela reside no estoicismo de uns poucos loucos, sim, porque tem de se ter uma boa dose de loucura para aceitar num contexto tão duro mudar onde chegar com a mão. E levar as mãos e também o coração, a locais perdidos do mundo, como estes e, assim, começar a mudar o mundo. Os nossos Missionários têm a minha profunda admiração e gratidão.
     E jamais se apagará das nossas cabeças o delicioso “Chaue…..”!

Gungo, Fevereiro de 2019
Luís Matias

3.ª Sessão de Formação FEC

A 3.ª Sessão do Plano de Formação de Voluntariado organizado pela FEC (Fundação Fé e Cooperação) realizar-se-á nos dias 16 e 17 de março, em Fátima, na Casa dos Franciscanos Capuchinhos.

Casa dos Franciscanos Capuchinhos, em Fátima

As inscrições poderão ser feitas até às 16H00 do dia 5 de março
Para esse efeito, preencha por favor o respectivo formulário de inscrição, clicando aqui.
Para algum esclarecimento adicional ou apoio, poderá contactar o Grupo Ondjoyetu ou enviar um e-mail para catarina.antonio@fecongd.org (Catarina António - FEC).


Apresenta-se a seguir o programa detalhado: 

Tema: Missão, Culturas e Religiões
Local: Casa dos Franciscanos Capuchinhos – Fátima

Sábado – 16 de março
09h30: Acolhimento
10h00: Missão: EU SOU UMA MISSÃO
              A missão de Jesus (Lc 10,1-11)
10h45: Pausa
11h15: A VIDA É MISSÃO
12h00: Trabalho de grupo
13h00: Almoço
14h30: CULTURAS
              Inculturação
15h15: Intervalo
15h45: Interculturalidade
16h30: Trabalhos de grupo
18h30: Plenário (partilha dos trabalhos de grupo)
19h30: Jantar
21h00: Testemunho Missionário   
    
Domingo – 17 de março
08h00: Oração da manhã
08h30: Pequeno-almoço
09h30: RELIGIÕES: Diálogo
10h15: Intervalo
10h30: Experiências de diálogo inter-religioso
11h15: Avaliação         
11h45: Intervalo: preparação da Eucaristia
12h00: Eucaristia
13h00: Almoço       


Formador
Ir. Rosineide Lima do Nascimento, IMC e Pe. José da Silva Vieira, MCCJ

Testemunho Missionário  
Ana Emanuel Nunes | Voluntariado Teresa de Saldanha | Missão de 3 meses em Timor Leste

Equipa Plataforma Voluntariado Missionário 
Catarina António e Susana Silva | FEC | 936 245 545


Inscrição na Formação FEC – 1 sessão = 10€; inscrição anual (inclui 5 sessões) = 20€
Estadia pensão completa em quarto duplo = 29€ 
Estadia pensão completa em quarto individual = 33€
Refeição = 10€  
Só dormida e pequeno-almoço (1 noite) = 15€ 
(o almoço do primeiro dia - sábado, dia 16 - será partilhado, sendo todos convidados a contribuir com algo)
 


Boa formação!

sábado, fevereiro 16, 2019

Walale Portugal

Acordei às 5:30 da manhã para conseguir escrever qualquer coisa para postar que o trabalho aqui na missão não tem dado tréguas, mas tudo se faz!
Bom, dia 30, eram 8 da manhã, já eu tinha desembarcado e estava na alfândega de Angola na fila para mostrar o visto. Mais uma hora, menos uma hora, lá me despachei… Levantei as minhas malas, e depois de uns contratempos com um funcionário do aeroporto, saí para me juntar com a minha nova família.
Seguimos para fazer algumas compras e, já próximo da hora de almoço, fomos às instalações dos amigos da “Imomukua” para entregar algumas coisas e onde nos concederam a refeição.
Após o almoço faltava ainda uma coisa para finalizar as tarefas na zona de Luanda, o Altar de vidro em Viana que foi oferecido pelo amigo Vítor Moniz e seus amigos para a nossa capela na casa do Sumbe. Após carregado na Vidreira de Viana, seguimos viagem parando no habitual miradouro da Lua para a foto da praxe. Ainda deu para dar duas ou três bolachas aos nossos amigos macaquitos na travessia do rio Kuanza.
“CHEGÁMOS AO SUMBE!” – Eram já 23 horas passadas e muita vontade de dormir. Lá estavam as manas, o tio Batata, e o cão da missão à nossa espera. Umas saudações e uns cumprimentos rápidos para nos irmos então deitar.


Fui apresentado ao bispo do Sumbe num dia em que foi possível ser-me apresentada a cidade. Tive oportunidade de conhecer a Catedral, o Bispado, a beira-mar, enfim, tudo um pouco do que a cidade do Sumbe tem para mostrar pelas suas estradas sempre bem pavimentadas, ou não…
Antes da subida deu ainda para algumas tarefas preparativas… Substituir o pneu do cavalinho que tinha furado na viagem a Luanda.


No dia da subida, antes da missa na igreja da “Pedra Um”, logo pela manhã, deparamo-nos com mais um contratempo, partiram-se outra vez dois postes de madeira da linha que abastece a casa da missão, “Não tem problema! Vamos resolver!” e assim foi… Cavar… Levantar... Amarrar! Ficou resolvido. Na igreja celebrámos Eucaristia onde duas meninas foram consagradas irmãs Guadalupanas. Um missionário recém-chegado fica sempre deslumbrado com os cânticos deste povo nas celebrações!



Subimos então ao Gungo acompanhados pelo Vítor Moniz, amigo do grupo “Volta a África” que desejou ir ao terreno para perceber as necessidades. Ele levou a carrinha dele até ao Sapato, onde as condições da picada são ainda aceitáveis, depois juntou-se a nós no cavalinho branco.
Subimos até ao Uquende onde pernoitámos todas as noites até ao regresso.
Deu para subirmos ao monte “Kavinjo” para tirar algumas fotos antes de começar os trabalhos.




Estava planeado começar a erguer a capela, mas dadas as condições do BTC, que não curou o tempo suficiente e tanto a sua resistência como as suas medidas estavam ainda em evolução, tivemos de realizar outras tarefas. No primeiro dia, a equipa de trabalhos empenhou-se, juntamente com o amigo Vítor Moniz em nivelar o piso do alicerce da capela… Carro de mão para aqui, pazada para ali e, no segundo dia, tínhamos já o piso alinhado…


Sem os blocos de BTC para as primeiras fiadas o trabalho para a equipa estava a escassear e então surgiu a ideia de carregar o Unimog com terra para fazer blocos e ir descarrega-la à Donga. Por conseguinte, descarregar a terra e carregar o Unimog de blocos BTC para descarregar no Uquende para as fiadas superiores da capela. No sábado montaram-se as luzes “SUNIGHT” em casa do tio Roque e do tio Mariano. As luzes chegaram a nós através da Inês Figueiredo e têm a funcionalidade de captar energia durante o dia através de dois mini-painéis solares e durante a noite tem um LED que pode ser aceso através de um comando remoto.



Ainda no Sábado, já à tarde, foi altura de começar os meus primeiros trabalhos como serralheiro aprendiz! A moagem do Uquende - “Olumema Olumema” tinha uma fissura no triturador de milho e tive de dar uns pingos para fechar a fissura. O trabalho não está à altura de um verdadeiro serralheiro, mas por aqui faz-se o melhor que se pode…
No Domingo de manhã, celebrámos a Eucaristia e, à tarde, fui à lavra com a mana Teresa e com a mana Sílvia. Lá estavam os quatro sobrinhos da Teresa sozinhos (Todos com menos de 10 anos). Sozinhos colhem o que vão comer e cozinham o seu almoço, sujeitos a lidar com animais perigosos e a trabalhar de sol a sol. Enfim, algo que vou guardar na memória.

Na segunda-feira, pelas 10 da manhã, iniciámos a descida. A mana Teresa ficou na Donga para puder ir à escola e por lá vai permanecer no decorrer do ano letivo. No posto de saúde do Uquende transformámos o cavalinho em ambulância e transportámos um ferido de um acidente de mota. Tinha o pé em mau estado e precisava de intervenção. Foram horas de picada dolorosas para o homem. Já depois de lhe terem visto o pé diz que já não se lembrava da viagem que fez desde o Uquende até ao Sumbe… Tal era o sofrimento…
No Sumbe a minha preocupação era de fazer todas as tarefas que tinha planeado fazer quando estava no Uquende, mas já vi que isso não é modelo. Na missão não há dia nenhum que corra como planeado nem há um dia igual a outro.
Bom, como previa pintei o chapéu da admissão do Elefante com primário, mas como depois surgiu outra tarefa, foi assim que ficou, com o primário… Agora temos um Elefante que dá nas vistas! Com o chapéu laranja!



Ora qual foi essa tarefa que nos ocupou tanto tempo? Bom, após uma viagem com o cavalinho para comprar peixe, pediram-me para lhe dar uma limpadela nos tapetes da frente e de trás e quando levantei um bocadinho o tapete da frente vi que tinha tanta terra e tanto lixo das dolorosas viagens que já fez que até tinha já três ou quatro sítios com chapa completamente podre.
Objetivo: Tirar bancos, tapetes, cintos, quase tudo o que vai desde o volante até às portas da bagageira para reparar os podres e repintar com primário. Tudo apenas em dois dias como se já fosse eu bate-chapas há vinte anos… Depois do jantar da quinta-feira tive de pedir ao nosso “MC Gyver” de serviço, o padre David, para me ajudar. Foi até à meia-noite a pintar com primário o chão do chassis do cavalinho que agora se pode chamar de cavalinho laranja! Este é um trabalho que vai ter de ser concluído na próxima descida.

Na sexta-feira fomos à Conda (Eu, a mana Sílvia e a mana Fernanda) para nos abastecermos de água e foi no caminho para lá que andei na estrada mais bem transitável até agora em Angola (Condições semelhantes à da nacional 113 em Portugal, com os tradicionais buracos atempadamente). No regresso conduzi eu o cavalinho e entre os barulhentos “Olha o buraco, OLHA o buraco, OLHA O BURACO!” da mana Sílvia, lá havia um ou dois que não escapavam…

Agora cá estamos a apertar as últimas cordas no Unimog e no cavalinho para mais uma subida.

“Lalapo!” ou “Até já!”

Estamos juntos,
Humberto